sábado, 14 de maio de 2011

Não desista do amor!


No corredor da minha casa há um quadro de metal onde exibo, mais para os meus olhos

do que para os alheios, fotos, textos, bilhetes, cartões, pequenas doses de doçura

capazes de me fazer lembrar de pessoas e coisas bem preciosas para mim.

Às vezes passo semanas seguidas sem incluir ou excluir peça alguma e sequer

pousar os olhos nelas, mas, quando algum fato estreita o meu coração em lugar

pouco arejado, eu costumo caminhar até lá para me nutrir com os recados que

geralmente me ajudam a respirar um pouco mais macio.

Entre as relíquias, existe um cartão que comprei há muito tempo e que diz uma das

frases mais interessantes com as quais já tive contato, identificada como um provérbio

sueco. A primeira vez que li essas palavras, arrepiei literalmente, a pele é o lado

de fora do sentimento, já arrisquei em outro texto. Parada na papelaria, sorri para aquele

pedaço de papel na minha mão, admirada por um texto tão curto revelar uma verdade tão

grande.

Procure me amar quando eu menos merecer,

porque é quando eu mais preciso.

Falamos e ouvimos à beça sobre o amor desde pequenininhos, já sabedores ou não do

que se trata ou minimamente da vizinhança disso. E, apesar das nossas

singularidades, costumamos ter pelo menos um desejo comum: queremos amar e ser

amados. Amados, de preferência, com o requinte terno da incondicionalidade. Na celebração

das nossas conquistas e na constatação dos insucessos. No apogeu do nosso vigor e no

tempo do nosso encolhimento. Na vez da nossa alegria e no alvorecer da nossa dor.

Na prática das nossas virtudes e no embaraço das nossas falhas. Mas não é preciso

viver muito para percebermos que não é assim que o amor, na prática, costuma acontecer.

Temos facilidade para amar o outro nos seus tempos de harmonia. Quando realiza.

Quando progride. Quando sua vida está organizada e seu coração está contente.

Quando não há inabilidade alguma na nossa relação. Quando ele não nos desconcerta.

Quando não denuncia a nossa própria limitação. A nossa própria confusão. A nossa

própria dor. Fácil amar o outro aparentemente pronto. Aparentemente inteiro.

Aparentemente estável. Que quando sofre, para não incomodar, por costume ou vaidade

não faz ruído algum.

Fácil amar aqueles que parecem ter criado, ao longo da vida, um tipo de máscara

que lhes permite ter a mesma cara quando o time ganha e quando o cachorro morre.

Fácil amar quem não demonstra experimentar aqueles sentimentos que parecem

politicamente incorretos nos outros e absolutamente justificáveis em nós.

Fácil amar quando somos ouvidos mais do que nos permitimos ouvir.

Fácil amar aqueles que vivem noites terríveis, mas na manhã seguinte se

apresentam sem olheiras, a maquiagem perfeita, a barba atualizada.

É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado.

Nos cafés, após o cinema, quando se pode filosofar sobre o enredo e as personagens

com fluência, um bom cappucino e pão de queijo quentinho. Nos corredores dos

shoppings, quando se divide os novos sonhos de consumo, imediato ou futuro.

É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nos encontros erotizados

nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.

Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. E entende tudo

errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. A coerência.

O rebolado. Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente

ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja.

Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as

cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na platéia. Quando até a própria alma parece

haver se retirado.

Difícil é amar quando já não encontramos motivos que justifiquem o nosso amor

acostumados que estamos a achar que o amor precisa estar sempre

acompanhado de explicação plausível, estatísticas promissoras, balancetes satisfatórios.

Difícil amar quando momentaneamente parece existir somente apesar de. Quando a dor do

outro é tão intensa que a gente não sabe o que fazer para ajudar. Quando a sombra se

revela e a noite se apresenta muito longa. Quando o frio é tão medonho que nem os

prazeres mais legítimos oferecem algum calor. Quando ele parece ter desistido

principalmente dele próprio.

Difícil é amar quando o outro nos inquieta. Quando os seus medos denunciam os nossos e

põem em risco o propósito que muitas vezes alimentamos de não demonstrar

fragilidade, vulnerabilidade, invencibilidade, lógica. Quando a exibição das suas dores expõe

de alguma forma, também as nossas, as conhecidas e as anônimas, as antiquíssimas

e as recém-nascidas. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente

saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, do nosso faz-de-conta

para caminhar humanamente ao seu encontro. E, ao encontrá-lo, talvez lhe dizer a verdade:

“eu sei o quanto você está doendo porque eu já doí também” ou “eu sei o quanto

você está doendo porque estou doendo também, agora” e/ou “porque vivo, eu estou à

mercê de doer de novo.”

Difícil é amar quando o outro repete o filme incontáveis vezes e a gente não aguenta mais a

trilha sonora. Quando caminha pela vida como uma estrela doída que ignora o próprio

brilho. Quando se tranca na própria tristeza com o aparente conforto de quem passa um

feriadão à beira-mar. Quando sua autoestima chega a um nível tão lastimável que, com

sutileza ou não, afasta as pessoas que acreditam nele. Quando parece que nós também

estamos incluídos nesse grupo.

Difícil é amar quem não está se amando. Mas esse talvez seja, sim, o tempo em que o outro

mais precisa se sentir amado. Eu não acredito na existência de botões, alavancas, recursos

afins, que façam as dores mais abissais desaparecerem, nos tempos mais devastadores

por pura mágica. Mas eu acredito na fé, na vontade essencial de transformação, no gesto aliado

à vontade, e, especialmente, no amor que recebemos, nas temporadas difíceis, de quem

não desiste da gente. Acredito porque nos momentos mais doídos da minha jornada até aqui

eu nunca encontrei nenhum botão mágico, mas tive fé, tive gesto, e, felizmente, tive quem

me amasse sem desistir de mim.

A empatia, a memória, a honestidade emocional, são também grandes aliadas do amor.


Ana Jácomo


Ps:Recebi o texto de Estela Vicentini. E vi tantos momentos nos quais passo,vi tanta identificação na dor,
no fato de que em alguns momentos ser congelada.,bloqueada, por não poder dar ou ser o que os outros
querem ou precisam.
É uma testificação do Espírito Santo de Deus.

Elane Tristão

quinta-feira, 12 de maio de 2011

TORRADAS QUEIMADAS


Torradas Queimadas

Desconhecido

Quando eu ainda era um menino, ocasionalmente, minha mãe gostava de fazer um lanche

tipo café da manhã, na hora do jantar. E eu me lembro especialmente de uma noite, quando

ela fez um lanche desses, depois de um dia de trabalho, muito duro. Naquela noite, minha

mãe pôs um prato de ovos, linguiça e torradas bastante queimadas, defronte ao meu pai.

Eu me lembro de ter esperado um pouco, para ver se alguém notava o fato. Tudo o que

meu pai fez, foi pegar a sua torrada, sorrir para minha mãe e me perguntar como tinha sido

o meu dia, na escola. Eu não me lembro do que respondi, mas me lembro de ter olhado

para ele lambuzando a torrada com manteiga e geléia e engolindo cada bocado.

Quando eu deixei a mesa naquela noite, ouvi minha mãe se desculpando por haver

queimado a torrada. E eu nunca esquecerei o que ele disse: “Adorei a torrada queimada…”

Mais tarde, naquela noite, quando fui dar um beijo de boa noite em meu pai, eu lhe

perguntei se ele tinha realmente gostado da torrada queimada. Ele me envolveu em seus

braços e me disse:

“Companheiro, sua mãe teve um dia de trabalho muito pesado e estava realmente cansada…

Além disso, uma torrada queimada não faz mal a ninguém. A vida é cheia de imperfeições e

as pessoas não são perfeitas. E eu também não sou o melhor marido, empregado, ou

cozinheiro, talvez nem o melhor pai, mesmo que tente todos os dias!

O que tenho aprendido através dos anos é que saber aceitar as falhas alheias, escolhendo

relevar as diferenças entre uns e outros, é uma das chaves mais importantes para criar

relacionamentos saudáveis e duradouros. Desde que eu e sua mãe nos unimos,

aprendemos, os dois, a suprir um as falhas do outro. Eu sei cozinhar muito pouco

mas aprendi a deixar uma panela de alumínio brilhando. Ela não sabe usar a furadeira

mas após minhas reformas, ela faz tudo ficar cheiroso, de tão limpo. Eu não sei fazer

uma lasanha como ela, mas ela não sabe assar uma carne como eu. Eu nunca soube

fazer você dormir, mas comigo você tomava banho rápido, sem reclamar.

A soma de nós dois monta o mundo que você recebeu e que te apoia, eu e ela nos

completamos. Nossa família deve aproveitar este nosso universo enquanto temos os

dois presentes.

Não que mais tarde, o dia que um partir, este Mundo vá desmoronar, não vai.

Novamente teremos que aprender e nos adaptar para fazer o melhor.”

De fato, poderíamos estender esta lição para qualquer tipo de relacionamento: entre

marido e mulher, pais e filhos, irmãos, colegas e com amigos. Então filho, se esforce

para ser sempre tolerante, principalmente com quem dedica o precioso tempo da vida

à você e ao próximo.

As pessoas sempre se esquecerão do que você lhes fez, ou do que lhes

disse.
Mas nunca esquecerão o modo pelo qual você as fez se sentir.


Até a próxima .

Elane Tristão