
No corredor da minha casa há um quadro de metal onde exibo, mais para os meus olhos
do que para os alheios, fotos, textos, bilhetes, cartões, pequenas doses de doçura
capazes de me fazer lembrar de pessoas e coisas bem preciosas para mim.
Às vezes passo semanas seguidas sem incluir ou excluir peça alguma e sequer
pousar os olhos nelas, mas, quando algum fato estreita o meu coração em lugar
pouco arejado, eu costumo caminhar até lá para me nutrir com os recados que
geralmente me ajudam a respirar um pouco mais macio.
Entre as relíquias, existe um cartão que comprei há muito tempo e que diz uma das
frases mais interessantes com as quais já tive contato, identificada como um provérbio
sueco. A primeira vez que li essas palavras, arrepiei literalmente, a pele é o lado
de fora do sentimento, já arrisquei em outro texto. Parada na papelaria, sorri para aquele
pedaço de papel na minha mão, admirada por um texto tão curto revelar uma verdade tão
grande.
Procure me amar quando eu menos merecer,
porque é quando eu mais preciso.
Falamos e ouvimos à beça sobre o amor desde pequenininhos, já sabedores ou não do
que se trata ou minimamente da vizinhança disso. E, apesar das nossas
singularidades, costumamos ter pelo menos um desejo comum: queremos amar e ser
amados. Amados, de preferência, com o requinte terno da incondicionalidade. Na celebração
das nossas conquistas e na constatação dos insucessos. No apogeu do nosso vigor e no
tempo do nosso encolhimento. Na vez da nossa alegria e no alvorecer da nossa dor.
Na prática das nossas virtudes e no embaraço das nossas falhas. Mas não é preciso
viver muito para percebermos que não é assim que o amor, na prática, costuma acontecer.
Temos facilidade para amar o outro nos seus tempos de harmonia. Quando realiza.
Quando progride. Quando sua vida está organizada e seu coração está contente.
Quando não há inabilidade alguma na nossa relação. Quando ele não nos desconcerta.
Quando não denuncia a nossa própria limitação. A nossa própria confusão. A nossa
própria dor. Fácil amar o outro aparentemente pronto. Aparentemente inteiro.
Aparentemente estável. Que quando sofre, para não incomodar, por costume ou vaidade
não faz ruído algum.
Fácil amar aqueles que parecem ter criado, ao longo da vida, um tipo de máscara
que lhes permite ter a mesma cara quando o time ganha e quando o cachorro morre.
Fácil amar quem não demonstra experimentar aqueles sentimentos que parecem
politicamente incorretos nos outros e absolutamente justificáveis em nós.
Fácil amar quando somos ouvidos mais do que nos permitimos ouvir.
Fácil amar aqueles que vivem noites terríveis, mas na manhã seguinte se
apresentam sem olheiras, a maquiagem perfeita, a barba atualizada.
É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado.
Nos cafés, após o cinema, quando se pode filosofar sobre o enredo e as personagens
com fluência, um bom cappucino e pão de queijo quentinho. Nos corredores dos
shoppings, quando se divide os novos sonhos de consumo, imediato ou futuro.
É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nos encontros erotizados
nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.
Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. E entende tudo
errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. A coerência.
O rebolado. Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente
ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja.
Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as
cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na platéia. Quando até a própria alma parece
haver se retirado.
Difícil é amar quando já não encontramos motivos que justifiquem o nosso amor
acostumados que estamos a achar que o amor precisa estar sempre
acompanhado de explicação plausível, estatísticas promissoras, balancetes satisfatórios.
Difícil amar quando momentaneamente parece existir somente apesar de. Quando a dor do
outro é tão intensa que a gente não sabe o que fazer para ajudar. Quando a sombra se
revela e a noite se apresenta muito longa. Quando o frio é tão medonho que nem os
prazeres mais legítimos oferecem algum calor. Quando ele parece ter desistido
principalmente dele próprio.
Difícil é amar quando o outro nos inquieta. Quando os seus medos denunciam os nossos e
põem em risco o propósito que muitas vezes alimentamos de não demonstrar
fragilidade, vulnerabilidade, invencibilidade, lógica. Quando a exibição das suas dores expõe
de alguma forma, também as nossas, as conhecidas e as anônimas, as antiquíssimas
e as recém-nascidas. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente
saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, do nosso faz-de-conta
para caminhar humanamente ao seu encontro. E, ao encontrá-lo, talvez lhe dizer a verdade:
“eu sei o quanto você está doendo porque eu já doí também” ou “eu sei o quanto
você está doendo porque estou doendo também, agora” e/ou “porque vivo, eu estou à
mercê de doer de novo.”
Difícil é amar quando o outro repete o filme incontáveis vezes e a gente não aguenta mais a
trilha sonora. Quando caminha pela vida como uma estrela doída que ignora o próprio
brilho. Quando se tranca na própria tristeza com o aparente conforto de quem passa um
feriadão à beira-mar. Quando sua autoestima chega a um nível tão lastimável que, com
sutileza ou não, afasta as pessoas que acreditam nele. Quando parece que nós também
estamos incluídos nesse grupo.
Difícil é amar quem não está se amando. Mas esse talvez seja, sim, o tempo em que o outro
mais precisa se sentir amado. Eu não acredito na existência de botões, alavancas, recursos
afins, que façam as dores mais abissais desaparecerem, nos tempos mais devastadores
por pura mágica. Mas eu acredito na fé, na vontade essencial de transformação, no gesto aliado
à vontade, e, especialmente, no amor que recebemos, nas temporadas difíceis, de quem
não desiste da gente. Acredito porque nos momentos mais doídos da minha jornada até aqui
eu nunca encontrei nenhum botão mágico, mas tive fé, tive gesto, e, felizmente, tive quem
me amasse sem desistir de mim.
A empatia, a memória, a honestidade emocional, são também grandes aliadas do amor.
Ana Jácomo
