
Não sei sentir, não sei ser humano
Não sei conviver de dentro da alma triste
Com os homens, meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo ser prático,
cotidiano e nítido.
Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo.
Mas tudo sobrou ou nada, não sei qual,
e eu sofri.
Eu vivi todas as emoções, todos os pensamentos
todos os gestos fiquei tão triste como se tivesse
querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda g ente, mas para toda
gente esse foi normal e institivo.
Para mim sempre foi a exceção, a válvula, o espasmo,
o schock!
Não sei se a vida é pouco ou demais pra mim
Não sei se sinto demais ou de menos, seja como for,
a vida de tão interessante que é a todos os momentos
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar
a ranger.
A dar vontade de dar pulos, de ficar no chão, de sair pra fora
de todas as casas de todas as sacadas, de todas as lógicas e ir ser selvagem...
entre árvores e esquecimentos.
Fernando Pessoa
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